13/07/09



As três cortesãs e a poesia chinesa na Dinastia Tang
por Ricardo Portugal e Tan Xiao

A história da China anterior à fundação da República (1912) é descrita pela sucessão de dinastias nacionais e regionais, cada uma delas marcada por uma identidade cultural. A “idade de ouro” da cultura clássica chinesa foi alcançada na Dinastia Tang (618-905 d.C.). Foi principalmente essa dinastia chinesa, caracterizada pelo cosmopolitismo e por uma diplomacia ativa, que serviu de matriz para o desenvolvimento posterior, por adaptação e refinamento, da cultura japonesa.

A poesia da Dinastia Tang é considerada o auge da poesia clássica chinesa. Essa produção poética foi depositária de uma já longa tradição literária e linguística, a qual remonta às primeiras grandes antologias de cantos antigos: o Shi Jing (Livro da poesia), compilação da Dinastia Zhou (1045-256 a.C.), e o Chu-ci (Cantos do país de Chu), que aparece no período dos Reinos Combatentes (em torno do século iv a.C.).

A prolificidade e, ao mesmo tempo, alta qualidade dessa poesia é notável. A popular antologia Poemas completos da Dinastia Tang, compilada posteriormente, no século xvii (Dinastia Qing), por ordem imperial, contém aproximadamente 50 mil poemas, escritos por 2200 autores. Terão havido mais nomes importantes, e muitos textos se perderam.

Entre esses poetas, há “apenas” 190 mulheres. Naquele período histórico de intensa vida urbana culta, a situação da mulher era bastante mais favorável que em outros momentos da história da China. A elas era permitida uma inserção social mais livre e igualitária. Ainda que excluídas do sistema dos exames imperiais que selecionavam a elite dominante, muitas mulheres possuíam educação e conhecimento literário.

Mesmo assim, as moças “de família” não eram encorajadas a escrever poesia e muito poucas recebiam o treinamento literário e artístico requerido de um intelectual na tradição confuciana. Meninas de famílias de ricos oficiais do Estado, a classe dominante, eram, por vezes, aceitas nas escolas de seu clã juntamente com os meninos, ou tinham tutores particulares. Mas geralmente as mulheres eram educadas o suficiente para exercerem funções do lar, sendo útil a leitura de livros sobre a correta conduta feminina, que ensinavam as virtudes da passividade, da modéstia, da moderação e da obediência aos futuros maridos e aos parentes do sexo masculino.

Nessa sociedade, floresceu uma casta de cortesãs cultas, recrutada entre meninas vendidas por causa da pobreza, oriundas de famílias de funcionários caídos em desgraça, ou ainda sequestradas. Essas mulheres eram amiúde mais livres que esposas e concubinas em suas vidas sociais. Algumas delas mantinham vínculo servil a um bordel. Também ocorria de famílias ricas manterem em suas propriedades grupos de mulheres com cultura literária, as quais trabalhavam como dançarinas e musicistas, chamadas de “cortesãs da casa”.

Havia também as “cortesãs oficiais”, assim chamadas porque atuavam em festividades palacianas ou porque eram ligadas aos mais caros bordéis da capital, sendo requisitadas por funcionários eminentes. Prósperas casas de cortesãs eram mantidas próximas ao local dos exames imperiais, e quando os resultados eram anunciados, realizavam comemorações. Essas cortesãs eram chamadas a entreter banquetes no palácio imperial e em residências abastadas.

As mais talentosas eram versadas nas artes clássicas (música, poesia, caligrafia, pintura) e eram tratadas como iguais em discussões e concursos de poesia. Muitas eram resgatadas por homens ricos e poderosos e se tornavam suas concubinas. Esse foi o caso da poeta Xue Tao, famosa por sua beleza e seu talento. Entre seus amigos e admiradores, estavam alguns dos mais considerados poetas de seu tempo, como Bai Juyi e Yuan Zhen.

Também na Dinastia Tang, as sacerdotisas taoístas eram mulheres de vida autônoma, que gozavam de grande liberdade em suas relações sociais. Ao contrário das monjas budistas, sua opção monástica não incluía a abstenção das relações sexuais. As sacerdotisas taoístas transitavam pela casta das cortesãs, podendo viajar livremente, mudar-se e associar-se a seu bel-prazer. Muitas, especialmente as mais abastadas, tinham amantes e participavam ativamente da rica vida cultural e literária da época. Algumas mantinham concorridas festas e saraus literários em suas residências.

As poetas Yu Xuanji e Li Ye estavam entre as mais influentes sacerdotisas taoístas de sua época. Yu Xuanji realizou muitas viagens, e vários de seus poemas são escritos em trânsito. Entre seus amantes e admiradores, estava o renomado poeta Wen Tingyun.

Li Ye era uma poeta bastante respeitada em sua época. Era também famosa pelas posições políticas muito críticas e pela personalidade forte e impositiva. Atribui-se a inimizades políticas o fato de sua biografia ser pouco conhecida e não muitos de seus poemas terem permanecido. A extraordinária delicadeza e sensorialidade de sua poesia, rica em sinestesias, mescla-se com escolhas vocabulares agressivas, até violentas, e mesmo com recurso a alguma vulgaridade.

A seguir, apresentamos algumas traduções que compõem o livro que estamos preparando, bilíngue, de poetas mulheres da Dinastia Tang. As traduções são feitas diretamente do texto em chinês (confrontadas com traduções em inglês), o qual é reproduzido abaixo.


Xue Tao

薛涛

CANÇÃO CONTEMPLANDO A PRIMAVERA

(iii)

Ao sopro do dia envelhecem as flores

Longe o momento, tão longa a espera

Nenhum laço une amor e amante

trança o vazio meu nó-do-amor

(iv)

Insuportáveis os galhos repletos,

flores demais! Saudades às pencas

Plena manhã, o espelho reflete

à primavera as lágrimas, o vento

春望词四首

(三)

风花日将老,

佳期犹渺渺。

不结同心人,

空结同心草。

(四)

那堪花满枝,

翻作两相思。

玉箸垂朝镜,

春风知不知。


Li Ye

李冶

DOENTE JUNTO AO LAGO – SAUDAÇÃO A LU YU

Sobre a geada a lua, à tua ida

e hoje retornas na amarga neblina

Eis-me deitada, enferma, aqui me encontras

À fala acorre a lágrima, escorre

Vens, e do vinho de Tao me ofereces

e te devolvo um poema de Xie

Encher a cara contigo outra vez

mais do que isso, que posso querer?

湖上卧病喜陆鸿渐至 昔去繁霜月, 今来苦雾时。 相逢仍卧病, 欲语泪先垂。 强劝陶家酒, 还吟谢客诗。 偶然成一醉, 此外更何之。


CANTO DE SAUDADE

Profundo, dizem do mar, suas águas

tão mais ao fundo chega a saudade

Mar sem margens, larga a sua praia

e mais longe alcança meu sentimento

Tomo o alaúde, subo as escadas

só no terraço, com a lua cheia

e esta canção que diz: estou triste

toco e arrebento as cordas, as tripas

相思怨 人道海水深, 不抵相思半。 海水尚有涯, 相思渺无畔。 携琴上高楼, 楼虚月华满。 弹著相思曲,

弦肠一时断。


ADEUS EM UMA NOITE DE LUA

Separar em silêncio, e a lua esplende

sem rumor nem fala. O sentimento

irradia o adeus que falta, e à lua

cintilam nuvens, águas e cidades

明月夜留别

离人无语月无声,

明月有光人有情。

别后相思人似月,

云间水上到层城。


Yu Xuanji

鱼玄机

A UMA GAROTA DO BAIRRO

A manga esconde em gaze o dia, tímida

E é primavera, há que maquiar-se

Dar com tesouros sem preço: isso é fácil

Achar um homem amante, tão difícil

No travesseiro as lágrimas se ocultam

e em meio às flores cala o coração

mas se posso paquerar um Song Yu

por que lamentaria um Wang Chang?

赠邻女

羞日遮罗袖,

愁春懒起妆。

易求无价宝,

难得有心郎。

枕上潜垂泪,

花间暗断肠。

自能窥宋玉,

何必恨王昌。


PARA OS SALGUEIROS JUNTO AO RIO

Um halo em jade às margens devolutas

nuvens procuram pavilhões distantes

As sombras deitam-se no rio de outono

as flores descem sobre os pescadores

Raízes densas são abrigo aos peixes

e enlaçam os ramos barcos visitantes

Suspira a noite à chuva geme ao vento

vertem tristeza os sonhos revolutos

赋得江边柳

翠色连荒岸,

烟姿入远楼。

影铺秋水面,

花落钓人头。

根老藏鱼窟,

枝低系客舟。

萧萧风雨夜,

惊梦复添愁。


Ricardo Portugal é poeta e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. Viveu cinco anos em Pequim e em Xangai. Publicou: DePassagens (Ameop, 2004), Arte do risco (SMCPA, 1992), entre outros. Organizou a edição bilíngue chinês-português Antologia poética de Mário Quintana (PUCRS, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido para o chinês, com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai.

Tan Xiao é graduada em Letras, com ênfase em língua inglesa e ensino das línguas inglesa e chinesa pela Universidade Zhong Nan, Changsha, Hunan, República Popular da China. Foi intérprete e tradutora da Embaixada do Brasil em Pequim. Atualmente, é funcionária do escritório brasiliense da empresa Huawei.

04/07/09



Dia 04/07 (sábado) 18h30
Qual é a do Erasmo de Roterdã
uma conversa entre três leitores do escritor e teólogo holandês, sobre
a escrita e as idéias de Erasmo de Roterdã no livro "O elogio da loucura".


Ricardo Silvestrin
escritor e músico

Carlo Pianta
músico, compositor e mestrando em literatura brasileira

Alexandre Brito
poeta e compositor

"Qual é?" acontece mensalmente, aos sábados, na livraria Palavraria.

rua Vasco da Gama, 165 - tel. 32684260
grátis


01/07/09


ilustração da capa: xilo de Renato de Mattos Motta



" Luuua, luuuua, luuuua,
Lá no auuu, lá no au auuuu,

Lá no alto brilhando!
Luuua, luuuua, luuuua!
Aluuuu... aluuuu... aluminando

Ora se não é o primo lobo
Nos dando concerto noturno
Mas cala essa boca logo
Antes que voe um coturno!

Ora veja, primo cachorro
Como está gordo e cevado
Enquanto eu de fome morro
Que boa vida tem levado!

Realmente não me queixo
Porque nada me faz falta
Tenho comida – até deixo
Que também nem cabe tanta

Na mata, primo, nem queira
Saber como anda a vida
Se anda a semana inteira
E não se acha comida!

Aqui tenho até uma casa

Ao lado da do meu patrão
Não por pouco fico prosa
Isto sim que é um vidão!

Na mata, o céu é o abrigo
Por teto somente folhas
Cobertas é aperta-se a um amigo
Se chove, por certo te molhas

Isso que tens não é vida
Isto é só necessidade
Devias deixar esta lida
Com os homens fazer sociedade

Mas que posso fazer

Pra conquistar tal amizade
Se o homem só de me ver
Já dá tiros sem piedade?

Também, o que queres?

Pudera! Basta alguém se aproximar
Já fazes cara de fera
E começas a rosnar! "


Renato de Mattos Motta é múltiplo. poeta, artista-plástico, fotógrafo, tradutor, publicitário. publicou Pau de Poemas (com ilustrações próprias em xilogravura), Salamanca (adaptação para quadrinhos de J. S. Lopes Neto), Fotopoemas e a Coleção Fogo do Verbo (caixas de fósforos com poemas). é responsável pela concepção gráfica e conceito editorial da Coleção Poesia Viva. o trecho postado é do primeiro volume do seu Os Cantos da Carochinha, transposição livre, em versos, das Estórias da Carochinha (que integra a Coleção Poesia Viva), lançada recentemente pela Editora Porto Poesia (portopoesia2@gmail.com).




O museu

por que um museu?
perguntou a musa ao dicionário
porque é necessário respondeu

tem que ter
um lugar um lugar um lugar
onde ver cabe dentro do olhar

que mancha vira rinoceronte

janela porta proutro horizonte
hoje nunca esquece de anteontem
e mármore flutua mais leve que o ar

um lugar sem pressa
que os azulejos contem uma história
e as escadas encantadas
levem ao mundo dos contos de fada

onde a emoção exata de um tigre
salte da xícara para a íris
e uma idéia, na sua forma alada mais rara
surpreenda o visitante e encontre um coração

um lugar que...
quando todos vão embora
e tudo fica completamente a sós
o vento que vem de lugar nenhum
sopra pelos corredores

as esculturas ganham vida
os personagens descem dos quadros
seguem todos para o grande salão
e lá reunidos, se divertem, dançam
fazem piadas sobre nós


alexandre brito
ilustração: Eduardo Vieira da Cunha

24/06/09



Castelinho do Alto da Bronze Cultural

Sete! Será mandinga?

Sete artistas tomam o castelo imortalizado pela lenda urbana de Porto Alegre e instalam suas idéias entre as paredes misteriosas do Alto da Bronze. Escultores, pintores, desenhistas, poetas, misturam tudo isso e dão asas à imaginação, para transformar o endereço famoso da Fernando Machado, em mais um ponto irradiador de Cultura.

Alejandro Ruiz Velasco, Adriana Xaplin, Elen de Oliveira, Lena Kurtz,
Lisete Bertotto, Manoel Henrique Paulo e Sandra Santos, entregam à comunidade artística, ao público leitor, aos admiradores das artes plásticas, da fotografia, da magia das cores caleidoscópicas, um espaço único de oficinas e experimentações sinestésicas... o Castelinho do Alto da Bronze Cultural.

neste sábado dia 27 de junho será inaugurado o Castelinho Cultural. confiram as atrações.

Programação:

Às 16 h - Abertura e recepção do público pela trupe circence "Cia Mundo Paralelo", e, sob o auspício do sol, observação da mágica prismática do Caleidoscópio gigante do Torreão

Às 18 h - show dos "poETs", banda formada pelos poetas Alexandre Brito, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto

na sequência:

- Telma Scherer e o seu espetáculo de poesia "O Rumor da Casa"
- Aninha Freire e Cibele Endres com duo de flautas
- Marisa Rotemberg


- entre outras atrações.

Confirme presença através do email: castelinhocultural@yahoo.com

13/06/09


capa: gravura de Marcius de Andrade

.
fenece a tarde cinza
como o sopro da chaminé
em frente a casa
o cedro envelhece

enquanto faço versos
em minhas mãos dançam rugas
que ao contorno da escrita obedecem
aduncas
contemplo o balé
que tantas tardes
se encarregam de compor
à pele em flor


no entanto faço versos
como os galhos encanecidos
das árvores que serenamente
seguem o vento
.

Juliana Meira
é poeta e tem nos livros de direito uma companhia que beira a estranheza. mas tudo é estranho no caminho de um poeta. quando li seus primeiros poemas vi que havia encontrado uma poeta. agora estréia em livro com seu "poema dilema", editado pela jovem e alvissareira editora Porto Poesia (portopoesia2@gmail.com). Juliana também escreve no
tempoema (www.juliana-meira.blogspot.com).




capa: gravura de Paulo Chimendes

Benção


O tempo tatua marcas
suaves na minha pele
como se escrevesse um poema
como se minhas cicatrizes
pudessem salvar a minha alma.


Mara Faturi tem muitos ocos dentro dela. também alguns abismos e porteiras fechadas. atrás dos seus olhos há uma vertente que de vez em quando se inunda de si mesma. então se lança em vôos de poeta num silêncio de azul profundo. essa é a Mara. essa é a poeta. acaba de lançar "andanças" pela editora Porto Poesia (portopoesia2@gmail.com).

17/05/09


oroboros
.
.
a língua é uma serpente sem pele e sem dentes
morde a si mesma com as gengivas de um velho diabo
.
já foi minha vizinha
mas no mês passado mudou para endereço ignorado
.
não bate bem do firmamento
tem a cabeça cheia de vocábulos
.
a víbora linguística
diz que do pensamento é o substrato
.
em nominar o inominado insiste
.
e só não é deus não porque não quer
mas porque ele não existe
.
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC

13/05/09



05/04/09

.
cambacicas

meu pai é uma espécie em extinção
dezenas de passarinhos o visitam diariamente
na sacada do apartamento

há um relacionamento de confiança entre eles
Cambacicas, Sanhaços, Saíras, Beija-flores
querem seu quinhão de água doce e guaraná

lê a Zero todos os dias
ouve o noticioso, assiste aos telejornais
não dá mais pra acreditar nos políticos
bandido brasileiro só é bandido no exterior
aqui é ministro, deputado, senador

preocupa-se com os netos, com os amigos
com parentes, o condomínio
comigo como se eu tivesse 48 anos
minha mãe não
pra ela não passei dos oito, treze, dezoito

os passarinhos fazem algazarra na sacada
querem mais do néctar que só ele faz
cada um tem um pai que o trouxe ao mundo
eu tenho um que ainda me trás
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC

27/03/09

tese sobre nada


uma caligrafia do imaginário
se reproduz segundo um código cifrado
em que se representam as idéias mediante caracteres simbólicos
metáforas consecutivas consideradas organicamente
nas constelações a que pertencem
sem auxílio de referências outras que não elas mesmas
mas, ao acolher ecos e reverberações sígnicas não mensuráveis
mantém um sentido, nas feições, no gesto
sempre transfigurado

assim uma escritura em ruptura
que avança do familiar ao desconhecimento
é lavrada no livro secreto das dúvidas
e, sem aparente significado especial
desprovida de qualquer relevância imediata
apenas e tão somente
articula substâncias essenciais medulares
exprimindo, por alusão, matéria subliminal
potencialmente transgressiva

pois esta entidade abstrata
esta quase impossibilidade
literalmente incapaz de ser definida
e determinada com certeza e/ou precisão
propaga-se, conceitual e esteticamente
quer por intangível que seja
quer por outro qualquer motivo
para além dos mapas tábuas e notações pré-estabelecidas
onde por exemplo, pedra em relação a ventania
harpia em relação a fósforo
ou ainda estrevania em relação a betoneira
habitam o âmago de uma mesma incógnita

sinto muito pelos cinco sentidos
não sentem o que eu sinto
os dois pés na cabeça de um fermento
encalacrado fora da zona de segurança
quando cada pormenor sem valor é crucial
e percorre o mesmo sol insólito dos hieróglifos
e, diferentemente do que se enuncia
a complexa simplicidade das coisas não requer preâmbulos
afirma-se per si, por abrasão, atrito, ou pelo puro
logológico jogo dos esquivocábulos

em sendo assim
uma poética das arestas é o que resta
protuberância viva no desmesuradamente plano
a parte visível do infinitamente dentro
o quinto lado do triângulo
.
alexandre brito
do inédito Cine ABC.

17/03/09



Doravante Dora


Na noite escura
A luz é Dora
Dourada Dora
Mulher não és
Rabit, Dora?
Entre os sinais
Sinaliza Dora
Entre os espelhos
Já é Senhora
Sem mãe, sem pai
Sem história
Simplesmente Dora
Dourando ao sol
Dura luz
De Dezembro
É Dora
Café pequeno
No Café Concerto
Entre borboletas
Mariposa é Dora
DuraDoura
Contra a luz
No chafariz
Moeda morta
Meretriz
Menina insiste
Do fundo do fosso
Canção blue
Tema livre
Dora em declive
Teto Escarro Vão
Na noite escura
Luz difusa
Mariposa descontinua
Alguém chora
No beco escorre
Para sempre, Dora...
.
Sandra Santos
poeta, artista plástica, web-expert, assina o blog "A gata por um fio".

27/02/09



não busco a palavra exata
o sentido. o sentimento
nem a pedra lançada no firmamento
ventania que represa o rio
entendimento

ou a palavra pela palavra
o sofrimento antigo. o novo
a liberdade selvagem do lobo
instinto que se quer arte
perfeição do ovo

não busco. mas encontro
.

alexandre brito
do inédito Cine ABC

26/02/09


a rede


mergulhado na tarde esquisita
cometo uma ideia aqui outra ali
entrevejo a mulher que eu adoro
e me divirto


aspiro rapé
alguns decímetros cúbicos de ar
e um poema beat desmesurado


"...a irrealidade é meu chão
e o esquecimento a minha bússola"

há que dispormos das armas necessárias no cinto de mil e uma inutilidades para enfrentar os malfeitores, a burocracia maquiavélica oficial remunerada e os arque-inimigos do Pasquim

mergulhado nessa esquisitice completa
faço anotações pra depois do crepúsculo


o crepúsculo tem músculos, oníricos músculos
e tudo ronrona depois do crepúsculo
basta esticar o dedo e pedir uma carona que ele te leva onde ninguém
só você


cochilo sobre essa ideia
"...depois do crepúsculo tudo ronrona"


desperto hirto

aquela manhã morna virou essa tarde quente

ê modorra pachorrenta... antes uma rede
meu reino por uma rede


a mulher que eu adoro se despe
abre suas asas de delícias sobre nossa cama
quero o que ela quer

o poema pode esperar
.
alexandre brito
do inédito cine ABC



dezoito horas e quarenta minutos
de uma tarde infernal de verão

assombrada
minha sombra enlouquece

estica-se à deformidade
alcança a fachada das casas distantes
agarra o horizonte

esforço inútil
a penumbra não tarda
a noite engolirá a ambos

seremos uma só escuridão

.
alexandre brito
do inédito Cine ABC

22/02/09


o taifeiro


sob a lâmina das águas

dorme a carcaça do jovem taifeiro


nunca mais as fragatas

nunca mais os prostíbulos

as nódoas da manhã inquieta

nunca mais


crispam-se as ondas

dançam as algas

gritam os peixes

imperturbável é o sono das profundezas


cai o sol

cai a noite sobre o cais

nunca mais o dia

nunca mais

nunca mais


dorme o jovem taifeiro em seu leito de areia

sob o lençol negro de um oceano decepado

.

alexandre brito

do inédito Cine ABC

31/12/08


Mergulho na tua noite
à procura de mim

seres inanimados
eclodem na sua forma humana

navegador incauto
eis-me um náufrago à deriva

inviabilizo-me nessa realidade crua
enternecendo-me de suas criaturas

busco um espelho que te reflita
uma imagem que me seduza

abandono o lugar de espectador
peregrino corpos e copos

tateio as ilusões das tuas perfídias
nessa minha sina de feiticeira

te revelo e me reinvento
e já não me sabes, e já não me sei
.
.
Sandra Santos
nascida em São Luis Gonzaga, cidade missioneira das mais antigas do Rio Grande do Sul, é uma artista genuína. poeta, contista, artista plástica. sua arte persegue a alma humana como os olhos de uma águia, profundamente, agudamente, ou de um pesquisador, silencioso, invisível, observador. com o ar que respira sopra a flauta mágica que encanta e me encantou.

18/10/08

pé de moleque

o museu do chulé
não dá pra acreditar

é uma inhaca só

meia fedida, tênis suado
sapato fedorento, coturno de soldado
pantufa xexelenta, chuteira chulepenta
chinelo de menino relaxado

tudo minuciosamente catalogado

pé rançoso, fedegoso, malcheiroso
pestilento, virulento, infecto contagioso
tem bodum de tudo quanto é bodoso

carpim de padre, sandália de pescador
frieira de freira, pezinho de princesa
bota catinguenta de estivador

a fedentina nunca acaba

os visitantes vão circulando
torcem o nariz, fazem caras
futum é o que não falta

pra quem não agüenta o fedor
tem prendedor


alexandre brito
do inédito Museu desmiolado




dissabor
de saber
eu sei


dessaber
de amar
eu soube


sabor de
não saber
eu sei de cor



alexandre brito
O fundo do ar e outros poemas / ameopoema editora

17/05/08





tarde quente
penso em você
vestida de brisa



meio-dia e meia
fome pouca
saudade inteira



lua na janela
ela olha pra mim
eu olho pra ela



levou meu cheiro
deixou um beijo, despido
de despedida


alexandre brito

do inédito Cine ABC.




vento nenhum
parou para ouvir
o silêncio da noite




lua alta
céu claro
o som da folha caindo




lua clara
a nuvem some
atrás da araucária




enquanto os carros repousam no estacionamento
a lua cheia de fevereiro cruza o céu
sobre a única araucária



alexandre brito

haicais do inédito Cine ABC.

11/05/08






Augusto de Campos
com protótipo do holograma "poema-bomba"




morituro 1994



tour 1994



poema-bomba (holograma) 1987



pós-tudo 1984



pó de cosmos 1984



sol de maiakovski 1982



o quasar 1975



pulsar 1975



tudo está 1974



código 1973




cidadecitycité 1963

tensão (1956)

clique sobre as imagens

Augusto Luís Browne de Campos
poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música, em 1951 publicou o seu primeiro livro de poemas, O rei menos o reino. Em 1952, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, dando início ao movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil, lançou a revista literária Noigandres, origem do Grupo Noigandres. em 1955, no segundo número da revista, publicou uma série de poemas em cores, Poetamenos, considerados os primeiros exemplos consistentes de poesia concreta no Brasil. o verso e a sintaxe convencional eram abandonados e as palavras rearranjadas em estruturas gráfico-espaciais, algumas vezes impressas em até seis cores diferentes, sob inspiração da Klangbarbenmelodie (melodia de timbres) de Webern. em 1956 participou da organização da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta (Artes Plásticas e Poesia), no Museu de Arte Moderna de São Paulo. sua obra veio a ser incluída, posteriormente, em muitas mostras, bem como em antologias internacionais como as históricas publicações Concrete Poetry: an International Anthology, organizada por Stephen Bann (London, 1967), Concrete Poetry: a World View, por Mary Ellen Solt (University of Bloomington, Indiana, 1968), Anthology of Concrete Poetry, por Emmet Williams (NY, 1968). a maioria dos seus poemas acha-se reunida em Viva Vaia, 1979, Despoesia, 1994 e Não, 2003. outras obras importantes são Poemóbiles (1974) e Caixa Preta (1975), coleções de poemas-objetos em colaboração com o artista plástico e designer Julio Plaza. seu livro, Não poemas (2003), recebeu o prêmio de Livro do Ano, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional.

Haroldo de Campos

GALAXIAS ( I )

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravilha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favilha de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala


* Trecho do poema Galáxias de Haroldo de Campos *

Haroldo Eurico Browne de Campos
seu primeiro livro é de 1949 poeta de vasta, profunda e sofisticada cultura, poliglota, aprendeu "os primeiros" idiomas no Colégio São Bento, como o latin, inglês, espanhol e francês., O Auto do Possesso quando, ao lado de Décio Pignatari, participava do Clube de Poesia. em 1952, Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo predominante entre os poetas, conhecidos como Geração de 45". a crença em uma "crise no verso" o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.fundam, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista de mesmo título. nos anos seguintes defendeu as teses que levariam os três a inaugurar em 1956 o movimento concretismo, ao qual manteve-se fiel até o ano de 1963, quando inaugura um trajeto particular, centrando suas atenções no projeto do livro-poema "Galáxias". doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação de Antônio Cândido. considerado o "mais barroco" dos concretistas, em 1999, o Prêmio Jabuti de poesia foi conferido para seu livro "Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um" (1998). foi professor da PUC-SP, bem como na Universidade do Texas, em Austin. dirigiu até o final de sua vida a coleção Signos da Editora Perspectiva. "Transcriou" em português poemas de autores como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Mayakovski, além de textos bíblicos, como o Gênesis e o Eclesiastes. com mais de 30 livros publicados, como "A Máquina do Mundo Repensada", último livro publicado em vida, onde declara já em seu título o diálogo com A Divina Comédia (Dante), Os Lusíadas (Camões), produziu numerosos e fundamentais ensaios de teoria literária, entre eles A Arte no Horizonte do Provável (1969).

Ferreira Gullar

PELA RUA


Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

Dentro da noite veloz (1962-75)


OSWALD MORTO

enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)
As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional
NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald
de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

O vil metal (1954-60)


TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Na vertigem do dia (1975-1980)

MEU PAI

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro

UM INSTANTE


Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Muitas vozes (1999)


CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Dentro da noite veloz (1962-75)




POEMA BRASILEIRO


No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade

Dentro da noite Veloz (1972 - 75)



Ferreira Gullar
é talvez, junto com Augusto de Campos, um dos grandes poetas brasileiros ainda vivos que, podemos dizer, influenciaram decisivamente a tradição deste gênero no Brasil. flertou com os poetas concretos, participou da fundação do movimento neo-concretista, afastou-se destes, sempre mantendo uma postura crítica independente. seu "Poema Sujo", escrito em 1975, respondendo às circunstâncias criadas pelo regime de excessão instalado pelos militares desde o golpe de 64, foi lido e relido clandestinamente em inúmeras reuniões por militantes, intelectuais e estudantes, naqueles difíceis anos de chumbo. seu trabalho sempre permaneceu aberto às experiências estéticas inovadoras. ainda em atividade, sua linguagem vai além do horizonte das palavras. o poeta, também crítico de arte, pinta quadros, faz colagens e desenhos. é o que ele chama de seu "lado B".







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alexandre brito
3 poemas visuais do livro Zeros - coleção Petit-Poa /1991.

07/05/08





no dia seguinte
decifrando os sulcos da caneta
na página em branco
ao resgatar o poema posto fora
encontrei a minha arte




alexandre brito
do inédito Cine ABC